Parece que a esquerda só torce contra. Pode isso, Arnaldo?

Por Camilla Nascimento 20/06/2021 - 11:41 hs

Dias atrás, meu pai, em um de nossos debates, me disse que o mal da humanidade é a ignorância, concordei porque o tema era vacinação. Adoro conversar com meu pai, porque teve uma vida inteira de luta por direitos do trabalhador no sindicalismo, e agora une a experiência e o charme que todo bom pescador tem. Começamos um debate desde as eleições de 2018, que não se encerra e nem diminui. De lá pra cá, falamos mais de questões em torno da saúde e também de alguns temas quase inacreditáveis. Ozonioterapia, ingerir detergente, tratamento precoce, eleições roubadas, Cloroquina, comunismo, despetização do país. Quantas mentiras circularam, aliás, estão circulando desde o início da pandemia?  Por que essas mentiras parecem tão interessantes e confiáveis?  A neurociência diz que o cérebro cria uma visão de mundo conforme a gente vive.  O cérebro é o criador de tudo e a interpretação da realidade depende dele.  Conforme o cérebro é exposto a novas situações, até então desconhecidas, como é o caso em uma pandemia um vírus letal, o cérebro então buscar explicações e soluções, sempre as mais rápidas possíveis.  É nesse momento que, ao se deparar com explicações mirabolantes, a maioria de nós se agarra a essa explicação como a salvação de tudo. O cérebro, portanto, tentar encontrar uma saída imediata para um tema que é prioritário, como é o caso da nossa sobrevivência. 

 Além desse recurso básico de sobrevivência, existe também um imediatismo na busca pela informação, alguns dizem por aí que vivemos na era do tribalismo digital.  Enquanto no passado, havia apenas algumas visões cosmológicas de mundo, interpretações sobre a vida que competiam entre si pelo domínio da mente coletiva, agora com um número bem maior de recursos de informação, que incluem os vírus informacionais, que são informações falsas, o mundo foi dividido em milhões de tribos, com interpretações que nem sempre se comunicam com outras visões de mundo, e até com algumas que desejam eliminar o pensamento diferente.  Funcionam como universos mentais paralelos com pouco ou nenhum laço social com o restante da humanidade.

O modo como se construiu a mentalidade dos seguidores de Bolsonaro, tem relação com esse universo mental paralelo, porque há falta de relação com a realidade. Para estabelecer diálogo é preciso ir além de consensos científicos e, até de algumas normas sociais estabelecidas, que podem nos levar a discussões inacreditáveis, como debater se a Terra é plana ou não, se precisa vacinar ou não.  Algumas vezes é como voltar ao início da civilização, e quando fatos não são levados em consideração, perdemos comunicação que é o elemento mais fundamental da nossa vida em sociedade.

Quem insiste no debate quando o assunto é saúde pública e todas as questões que envolvem decisões importantes sobre a vida coletiva, demonstra muito mais do que o desejo de ganhar uma disputa. Há, inclusive, um esforço paciente com quem correu por atalhos interpretativos para buscar soluções mais simples para os problemas. Além disso, nem a esquerda torce para que dê errado, nem existe polarização nos debates. Estudos mais recentes, como o da cientista política Deysi Cioccari, apontam que há uma polarização assimétrica, ou seja, uma radicalização extremada de um lado da conversação mas, não necessariamente do outro. Há um grupo pró-governo que estrutura uma falsa simetria entre nós versus eles, traduzido como direita versus esquerda. No entanto, os fatos apontam que na prática há um grupo em favor do governo e contra todos os demais, esses demais são todos os que não concordam cegamente, reunidos em um mesmo saco nomeado “esquerda-comunista-PT. 

O que ocorre é uma estratégia discursiva, que não dá as pessoas outra possibilidade que não seja essa única posição possível da direita extrema ou a outra única posição possível, ficcional, de uma esquerda petista extremista e estereotipada. O próprio Partido dos Trabalhadores desconstrói essa narrativa ficcional de um único caminho possível, afinal, é um partido composto por tendências internas, que é o que garante a pluralidade política e ideológica, respeitando o direito das minorias expressarem seus pontos de vista. Assim, as decisões internas são feitas com debate, disputa de argumentos e votos. Fora os debates internos apenas do PT, no Brasil, existem 7 possíveis caminhos partidários de esquerda, justamente aqueles que desejam que o curso do país continue por vias democráticas. São muitos, portanto, os caminhos democráticos à esquerda.

É falsa a construção de “nós” contra “a esquerda”, que toma para si boa parte do debate democrático, que construiu um cenário em preto e branco, narrando o mal versus o bem, um universo narrativo das estórias que aprendemos na infância maniqueísta, com influências culturais de gostos duvidosos, onde tudo se resumia na luta do bem contra o mal. É assim que o atual presidente se construiu como única opção possível em 2018, e deverá ser a mesma estratégia para 2022, mas, o golpe está aí, e cai quem quer. O que as esquerdas não podem fazer é acreditar que exista um tirano bonzinho, que fala crueldades mas era só brincadeira. Como já dizia Platão, sociedades que toleram a intolerância acabam, em algum momento, se tornando avessas à tolerância. Tolerar o intolerante é permitir que as pessoas sejam silenciadas, normalizar suas violências é aceitar que o próximo tenha seus direitos violados e seus corpos violentados. Não dá pra tolerar o intolerável, então a regra é clara, e pode discordar e chamar para o debate.

Na era da razão cínica, tanto pra se debater, mas, falta dizer que é uma enorme ilusão se achar alguém neutro, é uma postura arrogante se julgar livre de preferências, afetos e crenças. Pedir o fim das ideologias tendo em si a maior delas, a ideologia da neutralidade na vida e no debate. Mas, também essa ilusão me faz pensar que é resultado de uma educação com falhas no que deveria ser básico, e, “educação ruim, gera bons telespectadores, péssimos eleitores e muitos candidatos”, citando Preta Ferreira. Antes que eu fosse embora, meu pai tocou pra mim “Vírus da corrupção” de Bezerra da Silva e cantou “Quando ele está em campanha, diz que vai resolver toda situação... lá vem ele.”


Camilla Nascimento – Cientista social, Mestra em Educação e pesquisadora de gênero e violência.