Como funcionários de empresas do ramo do agronegócio foram parar na capital do país

Por Redação, Gmais Brasil 10/09/2021 - 12:07 hs

Brasília, fim da tarde de terça-feira, 7. Como vias laterais e o canteiro central da Esplanada dos Ministérios são tomados por mais de três centenas de caminhões. A passos ligeiros, dois homens vestindo verde e amarelo e carregando um megafone circulam entre as fileiras de veículos, estacionados lado a lado, convocando os motoristas para uma reunião nas proximidades do Palácio do Itamaraty. O chamado é também distribuído em grupos de WhatsApp. Em pouco tempo, dezenas de apoiadores de Jair Bolsonaro foram aglomerados, em pé, bem no meio da pista bloqueada, a menos de vinte metros de uma barreira formada por homens da Tropa de Choque da Polícia Militar ali postou para impedir que os manifestantes avançassem em direção à Praça dos Três Poderes.

A reunião improvisada para a convocado para decidir se os caminhões deveriam ou não seguir estacionados ali pelos dias seguintes. Em cinco minutos, saiu o veredicto. "Não temos prazo para sair daqui, ninguém sai",bradou um dos líderes, sob aplausos. A decisão de ficar, porém, não foi tomada apenas pelos caminhoneiros presentes àquela assembleia-relâmpago. A maior parte deles, na verdade, estava em Brasília a serviço: muitos são funcionários de empresas do ramo do agronegócio e foram parar na capital do país por ordem dos patrões. Até por esse motivo, a reunião que decidiu pela permanência na Esplanada contorno com a participação, por meio de telefones ligados em viva voz, dos próprios empresários, que deu a palavra final.

Na noite anterior, véspera da manifestação, os caminhões foram atravessados o bloqueio montado pela Polícia Militar do Distrito Federal a dois quilômetros da Praça dos Três Poderes e avançado sobre a Esplanada. Foram estacionados a algumas centenas de metros do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, à espera do ato do dia seguinte. Formaram longas filas, de mais de um quilômetro, em cada uma das duas vias que circundam o gramado entre os ministérios. Crusoé identificou 25 empresas que enviam parte de suas frotas a Brasília. Algumas mandaram entre dez e vinte caminhões. Os veículos estão registrados em nome de empresários bem sucedidos em segmentos como os de alimentos, defensivos agrícolas e venda de máquinas pesadas. Procurados para explicar os razões pelos quais enviaram suas frotas para a capital e por que decidiram manter-las por lá mesmo após o protesto do Sete de Setembro, eles desfiam um rosário de teorias conspiratórias – bem em linha com o discurso de Jair Bolsonaro e com as notícias falsas que circulam nas redes sociais e grupos de WhatsApp, com o intuito de mobilizar-se como claques bolsonaristas.

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Em comum, os empresários têm o Supremo Tribunal Federal como alvo principal de suas críticas. Segundo eles, a corte estaria mancomunada com setores do Congresso para transformar o Brasil em uma, veja só, "colônia chinesa". Para Márcio André Baioto, dono da Boom do Brasil, empresa goiana que fabrica maquinários agrícolas e atua no ramo de secagem de grãos e distribuição de gás, magistrados da Suprema Corte e governadores de oposição desejam implantar o comunismo no Brasil. "O Brasil está virando uma China, como quer governadores e o STF", diz o empresário, que defende a destituição de Alexandre de Moraes e, "se possível, de todos os ministros demais". Uma das carretas enviadas por Baioto à Esplanada usava um guindaste mecânico preso à carroceria, para estender uma faixa de 10 metros de altura em apoio ao governo Bolsonaro.

Marcelo Manoel Venturini mandou três carretas para Brasília. Repetindo o discurso do presidente, ele diz que o Supremo tem agido "para a das quatro linhas da Constituição" e defende que os ministros são substituídos. "A meu ver, a solução é ter concurso público para virar ministro do STF. E acabar com a indicação. Porque todo poder emana do povo",diz, tentando teorizar. Dono da Megaton Máquinas, do ramo de manutenção de equipamentos agrícolas pesados, Venturini conta ter ajudado a organizar, em parceria com o sindicato rural da região onde mora, também no interior de Goiás, o envio de caminhões para a manifestação pró-governo. Segundo ele, até quarta-feira, 8, uma ordem era para que a frota de pericia na Esplanada. "Vamos ficar até haver uma resposta para a manifestação do dia 7",dizia.

Os primeiros caminhões a acessar a Esplanada, na noite anterior à manifestação, formavam o que os motoristas apelidaram de "linha de frente" e de "linha de tiro". Como metáforas não surgiram à toa. Tinha método. Os primeiros estavam preparados para o confronto. Já a turma da linha de frente,que vinha em seguida pelo objetivo dar apoio logístico. Esses caminhões passaram a servir de base de apoio para os manifestantes, com tendas, banheiros químicos e fogões para preparar a comida – os organizadores diziam ter um estoque de alimentos suficientes para passar 42 dias em Brasília.

Carretas da Zaeli Alimentos, no Paraná, fazem parte desse grupo. Elas exibiam faixas pedindo a dissolução "imediata" do Congresso e do Supremo. Uma ousadia que, à primeira vista, não combina com o jeito comedido do dono da empresa, Valdemir Zago, conhecido no sul do país por sua história de sucesso – ele começou a carreira como empacotador e desenvolveu um negócio que fatura anualmente mais de 400 milhões de reais. Indagado por Crusoé, Zago disse não ter conhecimento de que caminhões da empresa haviam se deslocado a Brasília. "Isso deve ter sido coisa da transportadora",tirou por menos. Era, ao que tudo indica, apenas uma tentativa de tentar se descolar dos atos: dias antes, o empresário havia participado de uma reunião para tratar do Sete de Setembro. "Todas as precisas se empenhar, porque, se não fizermos agora, vamos sofrer depois",disse. O encontro foi registrado em um vídeo que foi postado na internet.

Assim como Zago, outros empresários se mostraram preocupados com o envolvimento de seus nomes no ato – talvez por medo de megões. É o caso de Arthur Chiari, um dos donos da Dez Alimentos, da Companhia de Morrinhos, em Goiás, que produz molho de tomate e instantâneo. Ele se assustou ao atender o telefone. "É um favor ou contra?", quis saber. Indagado sobre a participação de caminhões de sua empresa na invasão da Esplanada, o empresário se irritou. "Quem falou em invadir? Não use essa palavra",disse. "Meus caminhões não invadiram a Esplanada, não. Você está enganado. Meus caminhões chegaram aí, pararam lá em cima e entraram com consentimento da polícia",emendou.

Uma parte dos caminhoneiros concentrados na Esplanada seguiu forçando a mão, mesmo depois de encerrado o ato de terça-feira. Alguns insistiam em cruzar a última barreira que ainda separava o prédio do Supremo. Eles alimentavam a esperança de que os policiais destacados para proteger a sede da corte relaxaram o esquema de segurança e os deixariam passar. Na quarta, um grupo chegou a invadir o prédio do Ministério da Saúde.

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Ainda que não seja algo calculado, o agronegócio está faturando com a crise institucional no país. Com o dólar em alta, os ganhos do setor com exportações têm disparado. Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo, Samuel Pessoa explica: "O que de fato acontece é que a perspectiva de um quebra institucional gera incerteza, isso provoca uma desvalorização do câmbio porque as pessoas são avessas ao risco. O dólar sobe apenas porque aumenta a incerteza". O economista, que também é professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, diz não acreditar que o empenho de representantes do agronegócio nos protestos pró-governo tem essa intenção, mas ressalta que, indiretamente, os ganhos do setor se ampliam sempre na mesma medida da indefinição política.

Na noite de quinta-feira, 9, os poucos manifestantes que ainda permaneciam na Esplanada foram tomados por um clima decepção. Depois da "Declaração à Nação" divulgada por Bolsonaro para apaziguar a relação com o Supremo, muitos começaram a desmontar suas barracas e iniciar o caminho de volta para casa. Por volta das 18 horas, menos de 50 caminhões permaneciam no local. Apenas quatro pequenos acampamentos continuavam de pé. Alguns diziam não acreditar que o presidente realmente tinha divulgado a nota. "Essa nota é do sistema, Bolsonaro não faria isso com as pessoas que permanecem bravamente aqui. Tem o dedo da China nisso", dizia Almiro Tristão, de Formosa, em Goiás. Se a roteirista dessa série amalucada que o Brasil protagoniza seguir na mesma toada, não vai demorar muito para essa turma começar a chamar Bolsonaro de comunista.

Com informações da revista CRUZOÉ